quinta-feira, 31 de julho de 2014

Personalidade, saúde e modo de vida

"De acordo com a medicina tradicional, a doença definiu-se por diferentes expressões semiológicas, considerando-se saúde como a ausência de sintomas. No entanto, a evolução de todas as ciências vinculadas ao homem torna cada vez mais insustentável um conceito de saúde apoiado na inexistência de sintomas."

"A saúde, no entanto, é um processo qualitativo complexo que define o funcionamento completo do organismo, integrando o somático e o psíquico de maneira sistêmica, formando uma unidade em que ambos são inseparáveis.
Acreditamos que o conceito de saúde deve ser considerado mais um processo do que um produto. Na saúde humana, a otimização no funcionamento tanto do sistema somático quanto do sistema mental garante três aspectos básicos que devem integrar a compreensão da saúde. São eles:
a) Experimentar o bem estar, sentir-se motivado para a vida e com interesses definidos em relação às pessoas e às atividades concretas.
b) Ser capaz de autocontrolar-se a partir de uma cultura sanitária efetiva. Ter hábitos saudáveis e desenvolver atividades concretas que ajudem no processo de otimização das funções somáticas, sentindo-se o sujeito envolvido nelas.
c) Fazer que o estado atual do organismo corresponda a um momento essencial da otimização futura dos mecanismos e processos envolvidos na saúde humana."

"É preciso conceituar a saúde individualmente, atendendo aos seguintes aspectos:
a) Não se deve associar a saúde a um estado de normalidade, visto que, de forma individual, é um processo único que não se repete e que apresenta manifestações próprias. A saúde não é uma média, é uma integração funcional obtida individualmente, mediante múltiplas alternativas.
b) A saúde não é um estado estático do organismo, é um processo que se desenvolve constantemente, do qual o indivíduo participa de forma ativa e consciente na qualidade de sujeito do processo.
c) Na saúde, combinam-se estreitamente fatores genéticos, congênitos, somato-funcionais, sociais e psicológicos. A saúde é uma expressão plurideterminada e seu curso não se decide pela participação ativa do homem de forma unilateral. Esse é um dos elementos que intervém no desenvolvimento do processo, pois muitos dos fatores da saúde são alheios ao esforço volitivo do homem.
d) A expressão sintomatológica da doença resulta de um funcionamento estável das funções e mecanismos que expressam o estado de saúde.
A saúde não é a ausência de sintomas, mas sim um funcionamento integral que aumenta e otimiza os recursos do organismo para diminuir sua vulnerabilidade aos diferentes agentes e processos causadores da doença."

"O mental afeta o somático não pela aparição do sintoma, mas sim pela multiplicidade de formações, mecanismos e manifestações funcionais geradores de insegurança, ansiedade, depressão, distresse e outras formas de expressões psicológicas não saudáveis que, após atingirem uma determinada estabilidade no plano da personalidade, afetam, de maneiras diversas, o funcionamento somático do organismo."

"Em nossa representação atual sobre a saúde humana, julgamos que esta é um processo complexo, multidimensional, diferenciado, contraditório e ativo. O caráter diferenciado da saúde, próprio de todos os fenômenos complexos, enfatiza a existência de formas muito diferentes de produzir saúde, o que nos afasta de uma visão única e padronizada do processo, como a que implicitamente está presente na definição de atributos únicos para definir uma personalidade saudável."

"O caráter ativo do processo de saúde significa que esta se encontra em constante desenvolvimento, que não representa uma qualidade absolutamente definida na natureza do homem, mas sim um processo que se define na integração e desintegração constantes de uma multiplicidade de estados dinâmicos e de processos gerados em diferentes níveis da constituição individual - os quais são afetados, mediante diversas vias, por elementos climáticos, geográficos, físicos, culturais, sociais, subjetivos, dentre outros aspectos, todos eles constitutivos da ecologia natural e social em que o homem se insere. As múltiplas configurações desses elementos, no desenvolvimento único de cada organismo, serão definidos em estados dominantes de saúde e/ou doença."

"Considerando a saúde e a doença como processos de configuração, queremos enfatizar duas coisas: primeiro, a natureza multidimensional e irregular desses processos, isto é, o fato de eles se configurarem a partir da integração e da desintegração de situações diferentes do funcionamento orgânico e subjetivo de cada sujeito concreto, os quais, como já definimos, integram de forma constante as condições ecológicas da existência humana; em segundo lugar, com essa definição, queremos enfatizar que um estado concreto pode tornar-se um núcleo de transformação qualitativa do estado geral do sistema, ou seja, que os processos de saúde e doença reforçam-se ou modificam-se por meio de estados muito diversos do organismo, alguns dos quais são microprocessos muito específicos, geradores de outros processos que, em sua inter-relação, conduzem à mudança do estado geral do sujeito em sua dimensão constitutiva de saúde-doença.
O funcionamento de qualquer sistema configuracional não é aditivo, já que esses são sistemas abertos distantes do equilíbrio, cuja condição saudável reside justamente em sua capacidade de incorporar, de forma permanente, os elementos novos que levam o sistema a diversos momentos de funcionamento. Assim, qualquer elemento sensível ao funcionamento geral do sistema pode ser, em um momento concreto do seu funcionamento, responsável pelo desenvolvimento de uma dinâmica que fuja da capacidade generativa aberta desse sistema e conduza à aparição de eventos patológicos que vão contra o desenvolvimento auto-regulado do sistema."

"É indiscutível que qualquer manifestação de prejuízo na saúde somática afeta a saúde mental, assim como qualquer alteração da saúde mental afeta a saúde somática, pois ambos os momentos são parte do sistema mais abrangente do indivíduo que adoece. De fato, a doença não é o sintoma, senão a alteração sistêmica do organismo que se expressa no sintoma."

"O ideal social, o sistema de normas e valores com que se pretende alcançar os fins sociais estabelecidos em qualquer projeto não pode se impor à capacidade real que têm os indivíduos de uma sociedade para impor à capacidade real que têm os indivíduos de uma sociedade para segui-los, num determinado momento histórico, porque quando o projeto transcende as potencialidades dos indivíduos para envolver-se nele por sua autodeterminação, via de regra, aparece a compulsão social como mola fundamental na mobilização do plano individual, o que implica uma dissonância permanente nos indivíduos que se converte em uma importante fonte de distresse."

"Como expressões políticas intencionais, a sociedade desenvolve, de forma direta, um sistema de saúde que expressa a ideologia e os fins de sua organização política. Assim, a sociedade socialista garante saúde gratuita para todos os cidadãos e, dessa maneira, criam-se em alguns países socialistas, entre eles Cuba, campanhas de prevenção que envolvem propaganda, vacinação, ação educativa com a comunidade e com a família, nas quais se investem grandes recursos.
No entanto, as campanhas educativas direcionadas à transformação dos hábitos e formas de vida prejudiciais à saúde precisam, para serem efetivas, do desenvolvimento dos diferentes grupos, camadas e classes sociais a que são direcionadas. A educação para a saúde não é um aspecto alheio à educação integral da personalidade, na qual se manifesta a cultura de uma determinada população."

"A evolução e a ativação das potencialidades auto-reguladoras da personalidade, unidas ao fortalecimento da projeção imediata na regulação motivacional, são importantes elementos psicológicos para o confronto do indivíduo com a doença, assim como da resistência do organismo para sua aparição e evolução."

"A existência de uma ótima rede de hospitais e, inclusive, de uma excelente campanha de saúde no setor social, própria dos países desenvolvidos, tem demonstrado ser insuficiente para chegar ao modo de vida e ao comportamento individual do homem, fatores que devem ser preparados por sua própria evolução histórico-social, mediante as diversas instituições sociais, para converter os indivíduos em verdadeiros sujeitos da saúde capazes de expressar um comportamento individual coerente com um modo de vida saúde."

"A ligação entre sociedade e doença é extremamente complexa, pois implica as formas de funcionamento das instituições sociais, dos grupos formais e informais, dos diferentes sistemas de inter-relacionamento do homem, tanto os personalizados, como com a mídia, as tradições, formas de consciência social etc., todos os quais se inter-relacionam, simultaneamente, de maneira muito diversa, definindo múltiplos sentidos psicológicos para o homem dentro de um espaço simbólico cada vez mais complexo."

"Outra linha de interesse refere-se À relação entre os estilos explicativos pessimistas e a doença física. Nesse sentido, diferentes pesquisas sugerem que os indivíduos que explicam, de maneira pessimista, os fatos negativos vivenciados, apresentam uma função imune mais baixa, a qual os torna mais vulneráveis a doenças."

"Acreditamos que o estresse, como explicamos no capítulo anterior, está associado aos tipos de emoção que são geradas no decorrer das ações do sujeito, nas quais estão comprometidas, simultaneamente, as configurações atuais de sua personalidade e as características do contexto interativo em que as ações acontecem. Nesse sentido, o estresse não ficaria definido, de maneira mecânica, nem como um fenômeno externo nem interno, mas sim como um fenômeno complexo e multi-determinado que inclui ambos os momentos em sua definição subjetiva. O estresse tem muito mais a ver com o tipo de emoção produzida que com o evento ameaçador. Pode ser mais estressante para uma pessoa organizar seus documentos que enfrentar um assalto e aqui aparece sua dimensão de sentido."

"Por exemplo, uma mulher pode sentir emoções, relacionadas à sua vida sexual, que manifestem certas necessidades surgidas no momento atual de sua maturidade pessoal. Todavia, por determinados preconceitos de sua formação moral, não elabora tais necessidades em suas representações e, portanto, não se comunica com o marido a respeito disso, o que impede sua expressão e extensão nesse ambiente de sentido subjetivo. Essa situação, perpetuada no tempo, pode ser fonte de emoções que afetam seus sistemas de auto-regulação fisiológica e subjetiva, podendo configurar-se como um momento importante na evolução de algum sintoma somático ou psicológico."

"O distresse não se produz somente por excesso de estímulo, mas também pela falta deste. Quando o homem não encontra um sentido naquilo que faz, nem é capaz de formular planos com os quais deve organizar sua vida presente, mesmo quando seu regime de atividade é calmo, ele experimenta fortes tensões internas que definirão o estado de distresse. O excesso ou a falta afetam a pessoa pelo seu sentido subjetivo, mesmo que, em certas ocasiões, suas características objetivas possam causar dano."

"O estado saudável alcança, portanto, uma definição individual que, mesmo quando expresse algumas características gerais, estas não podem ser definidas como critérios padronizados para posicionar cada um dos indivíduos saudáveis.
Por outra parte, o estado saudável não é um estado estático, uma coisa dada de uma vez e para sempre, senão um processo constante, organizado de maneira simultânea numa multiplicidade de diferentes níveis que implica, assumindo o termo introduzido por Bateson, uma ecologia complexa da saúde humana. É um processo afetado pela ação do sujeito, de suas situações interativas atuais, da ecologia social e natural em que vive, etc., processos integrados entre si na definição configuracional sobre a saúde seguida por nós neste livro."

"Por outro lado, é normal a sociedade gerar estados psíquicos não saudáveis naqueles setores da população que marginaliza, explora e/ou aliena, cuja expressão na psiquê deve ser apresentada e elaborada pela psicologia. Mas as desordens mentais não se limitam a setores alienados ao nível macrossocial. Cada um dos grupos, classes e setores de uma sociedade irá gerar patologias."

"A subjetividade representa um sistema aberto, pluridimensional, complexo e em constante desenvolvimento, que define sua qualidade por meio de uma multiplicidade diferenciada de configurações, as quais não se repetem em cada sujeito ou instância social concreta que a constitui. A subjetividade, como definimos anteriormente, foi dividida por nós em social e individual, segundo o cenário de sua constituição. A subjetividade individual expressa-se na construção teórica da personalidade e do sujeito, enquanto a social existe em uma multiplicidade de cenários distintos, como a instituição, a família, os grupos informais, a comunidade, os processos constitutivos do cotidiano de todo o cenário social etc., e na integração desses espaços entre si e como momento do funcionamento da sociedade como um todo."

"A doença é um processo vivo, que deve ser entendido em cada indivíduo concreto e, embora existam regularidades gerais de tipo personológico, que definem uma maior ou menor vulnerabilidade do indivíduo ao estresse, jamais definem, por si próprias, o processo de doença. A personalidade não define, de forma linear ou correlacional, nenhuma doença, sendo necessário penetrar na configuração da subjetividade do sujeito em um determinado momento de sua vida, dentro da qual a personalidade representa um sistema subjetivo que serve de base a um sistema múltiplo e, inclusive, contraditório, de alternativas simultâneas de comportamento, que se expressaram de uma ou outra forma a partir dos posicionamentos do sujeito em face das condições atuais de suas ações."

"No diagnóstico psicológico dos fatores de risco da hipertensão e do infarto do miocárdio, devemos diferenciar os fatores personológicos e o estado atual do indivíduo como sujeito de seu comportamento, dentro do qual devemos definir suas contradições, o estado anímico preponderante, a representação atual que tem de seu mundo, o esforço volitivo que realiza na busca de soluções etc. Além disso, devemos precisar o comportamento social de sua situação vital, os fatores alheios à sua vontade que o afetam e a forma como essa situação fundamental objetiva deverá continuar evoluindo.
Em nossa consideração sobre o valor do personológico no processo da doença, queremos enfatizar que não aspiramos a descobrir um tipo de personalidade de risco, mas mostrar que há múltiplas combinações psicológicas que, diante de uma situação concreta do sujeito, podem tornar-se configurações psicológicas de risco.
Outro aspecto do processo de doença que queremos destacar é a sua natureza única; isso evidencia que, na análise da etiologia dessas doenças altamente mediatizadas pelo psicológico, não se pode hipertrofiar uma causa única, integrando-se qualquer elemento particular ativamente com outros fatores de caráter genético e social, de cuja integração dependerá a evolução etiológica. Inclusive, em casos de alta predisposição genética, o psicológico sempre mediatiza, junto a outros aspectos, o processo de surgimento ou não da doença."

"O sentido que a doença adquire para o sujeito está muito relacionado à sua própria personalidade; mais ainda, está determinada por esta. Assim, para alguns indivíduos, a doença é um incentivo para otimizar todos os seus recursos na recuperação e atingir inúmeros objetivos ainda não alcançados, convertendo-se, assim, em um importante fator psicológico para o restabelecimento, enquanto para outros, segundo ilustra este caso, a doença é um motivo para justificar a passividade, reforçando-a."

"Nem o diagnóstico nem o prognóstico podem ser estritamente associados com o surgimento de determinados indicadores universais, sendo necessário o conhecimento dos modos de integração e de sentido de tais indicadores na individualidade que os assume, para poder chegar a conclusões. Nesse mesmo processo, chegamos gradualmente a regularidades gerais que, encobertar sob formas de expressão muito diversas, pudemos descobrir e interpretar somente pelo acúmulo progressivo de conhecimentos obtidos nesta esfera."

"Os conceitos de níveis de regulação, de agrupamento funcionais e de configurações individuais suscetíveis ao distresse configuram uma integração sucessiva de reflexões, que se expressa, em um novo momento qualitativo, tanto de nossa análise como de nossa aproximação metodológica. Nessa construção progressiva, defendemos, junto à questão personológica, o importante papel do sujeito e de sua situação social, fatores que devem integrar-se tanto à pesquisa e ai diagnóstico desses indivíduos quanto à psicoterapia."

"Com isso queremos dizer que o diagnósticos é um processo vivo que, mesmo quando se realiza sobre uma base teórica, com indicadores que se definem nos instrumentos utilizados, a integração e a delicadeza desse processo não pode encerrar-se em marcos despersonalizados, de caráter padronizado e neutro. É como a maioria dos momentos do conhecimento humano, uma integração ativa e subjetiva, da qual deriva uma ação eficiente sobre o outro."

"No campo da saúde, a orientação e a psicoterapia são processos que estão intimamente relacionados, sendo ambos importantes no trabalho de prevenção. Muitas vezes, vincula-se a psicoterapia à doença, fato este considerado por nós como um equívoco porque justamente a intervenção psicoterápica é necessária antes da aparição do sintoma. Há sujeitos que experimentam uma série de tensões ou manifestações orgânicas nas quais, embora não apareça uma sintomatologia definida, estão presentes os fatores psicológicos, cuja mudança é fundamental."

"Do nosso ponto de vista, o sintoma pode ter sua origem tanto em um plano relacional como intrapsíquico, pode ser de base orgânica ou psicológica. Ocorre que, quando o sintoma aparece, todos esses planos se integram em uma unidade funcional. Nesse sentido, o sintoma pode estar motivado por um conflito, cujo sentido o sujeito não consegue controlar, e a tensão constante afeta todas as esferas da vida da pessoa. Uma vez surgido, o sintoma pode cumprir uma função no sistema de relações do sujeito, contribuindo para sua fixação. Contudo, deduzir de forma absoluta que sua origem está no plano das relações pode conduzir a desconsideração de aspectos importantes no tratamento."



GONZÁLEZ REY, Fernando. Personalidade, saúde e modo de vida / Fernando González Rey ; tradução de Flor Maria. Vidaurre Lenz da Silva. - São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2004.


terça-feira, 15 de julho de 2014

O SUS que eu vivi

"Sabiam os gringos que a maioria absoluta dos sanitaristas brasileiros envolvidos ou interessados em experiências de medicina comunitária tinha suas "idéias" influenciadas pelo Partido Comunista ou pela Igreja Católica que, apesar de oposição ao governo da Ditadura, fazia, também, oposição ferrenha à política do controle de natalidade."

"Pois, se na década de 70, os pais residentes nos chamados "bolsões de pobreza" - na realidade regiões em que as relações sociais de produção predominantes eram ainda pré-capitalistas - interessavam-se em ter muitos filhos para garantir a sobrevivência de alguns e, assim uma força de trabalho familiar suficiente para viver do extrativismo e da agricultura de subsistência. já nos anos 80, a maioria das famílias tinha seus responsáveis adultos inseridos no mercado de trabalho e a existência de crianças constituía-se mais um estorvo ao cumprimento da jornada de trabalho. Então os próprios casais passaram a limitar os nascimentos e o que se viu foi a instituição do planejamento familiar com assistência do Estado, provendo a população interessada de informações e meios anticoncepcionais."

E o curioso, é que sem me dar conta, eu e meus projetos estávamos cumprindo papel de relativa importância na modernização da região. Modernização nos costumes, nos gostos, na cultura e no disciplinamento do viver do povo que só tinha a ver com a transformação induzida nas relações de trabalho e de propriedade. em 1975, quando deixamos o Vale do Jequitinhonha, sobretudo na região dos cerrados, as posses de terras pelos extrativistas que constituíam as parcelas mais pobres da população, ou, as dos fazendeiros que usavam a exploração extensiva como forma de compensar a pequena fertilidade daquela, haviam se transferido para empresas de grande porte: no início para os interessados no reflorestamento e, depois, para agro-indústrias e médios produtores de grãos e café, cuja cultura se tornara possível pelo desenvolvimento da tecnologia apropriada à exploração de solos ácidos e pobres em alguns minerais essenciais. O que, em outras palavras, significava, que, contribuindo para modernizar as regiões pobres do nordeste e norte mineiro, buscando soluções de baixo custo para atender direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores como condições para aceitarem o assalariamento, nós sanitaristas ainda vivendo o sonho de um socialismo democrático, ajudávamos, na prática à consolidação do capitalismo. Capitalismo que já se havia tornado vitorioso pela competência de suas lideranças nacionais e internacionais ou pela incompetência dos socialistas nacionais ou internacionais."

"Ele era, a comprovação existencial de que nós poderíamos realizar um sonho, que se colocava como possibilidade no Projeto Montes Claros: construir os fundamentos de uma contra-cultura que pudesse expressar as aspirações e desejos mais simples, do povo. Este, aqui, entendido como o conjunto dos grupos dominados na sociedade que se organizava no processo de desenvolvimento, em curso, para as regiões denominadas 'bolsões de pobreza'. Um processo de desenvolvimento fundamentado na intensificação e aceleração da capitalização das relações de produção, com os estímulos e incentivos concedidos pelos governos à constituição e à consolidação das grandes agro-indústrias."

"Hoje estou cada vez mais convencido de que sempre existiu uma cultura de resistência dos dominados que vem se tornando mais organizada (ou estruturada) e da qual os dominantes jamais poderão se apropriar e nós, naquela época, já procurávamos incorporar. Suas manifestações nas crenças, nas danças e artes em geral, nos comportamentos, nas comemorações encontrarão sempre canais alternativos de expressão tais como os terreiros de candomblé, a capoeira, o 'rap' ou o 'afro-reggae', os bailes 'funk', a malandragem, as 'Festas de Reis' etc. E, por mais que alguns canais de expressão da cultura popular pareçam ter sido apropriados, disciplinados ou amoldados pelos grupos dominantes, os dominados encontrarão alguma maneira de manterem-na como instrumento de resistência."

"Não tínhamos muito claro, na equipe, como cumprir um Princípio enunciado como um dos mais importantes do Projeto: o da Participação Comunitária. Já, no Vale, pela leitura de textos (alguns oficiais) e em debates sobre a questão, passamos a ter certa reserva com relação aos propósitos do uso da palavra Comunidade. Por que ela era sempre usada par definir populações que deveriam ser ou buscar se unificar na busca de atendimento a interesses comuns, como se isso pudesse ser alcançado em uma sociedade cindida por interesses contraditórios ou mesmo antagônicos, por mais reduzida que fosse sua população. O uso do termo comunidade teria, então, um objetivo mais ideológico no sentido de obscurecer necessidade de lutas políticas para as quais partes das pequenas sociedades locais deveriam se organizar, enfatizando os interesses nada comuns, como objeto de uma ação coletiva."

"Acho que nenhum de nós compreendeu, na época, que o caminho adotado por nós nas práticas que buscavam apoio social e político para o Projeto, pela transparência de seus objetivos e metas, pela difusão lenta, mas progressiva da intervenção de fatores sociais e políticos na determinação da saúde da doença, era, talvez a única forma de conseguir maior participação social na condução daquele. Mas, foi assim que aconteceu. E hoje tenho plena convicção que o caminho foi e é ainda o mais acertado para se obter a participação social no desenvolvimento de políticas públicas."

"A implantação do Projeto deu-se, então, de modo muito coerente com a estratégia geral de condução: Desenvolver todas as atividades de modo participativo atendendo ao objetivo maior de ampliar a consciência de funcionários e população em relação à sua realidade, no campo da saúde; encontrar coletivamente os melhores caminhos e passos a percorrer para modificar favoravelmente a realidade vigente; e, como consequência natural decorrente, construir alianças e bases políticas e sociais mais sólidas para sustentação de nossas opções."

"Compreendi com mais clareza que em uma sociedade dividida entre interesses antagônicos e contraditórios sempre haveria, em qualquer projeto levado à prática, aliados e adversários, estruturais e circunstanciais. E que os esforços de quem conduz devem se orientar sempre em ampliar alianças e diminuir oposições, pois quem conduz as ações sempre o estará em meio a uma luta política e ideológica."

"Talvez, porque descobrira, na prática, que a execução do planejamento só se dava com êxito pelo exercício da política, entendida como agir estratégico completado com o agir comunicativo."

"Não procurei convencer os companheiros em discussões. Já aprendera que somente com o trabalho desenvolvendo mais claramente seus objetivos, descortinando caminhos a percorrer, antecipando obstáculos e desafiando a criatividade de cada um para o desenho de estratégias e táticas, poder-se-ia esperar o engajamento entusiasmado das pessoas. Então, propus que juntos começássemos por tentar avaliar diante da conjuntura mundial, nacional e estadual, a necessidade e a oportunidade da Reforma Sanitária Brasileira. Que tal se começássemos por realizar uma avaliação da situação no mundo, no país e no Estado com vistas a embasar nossa missão de trabalhar para a expansão do PIASS em Minas? Miriam me interrompeu, talvez para me ajudar a expressar minha proposta com uma pergunta: 'Você está propondo uma análise de conjuntura mundial, nacional e estadual para justificar um projeto de reorganização dos serviços de saúde?'. "É isso mesmo, Miriam, eu só não sabia que isso se chamava Análise de Conjuntura. E como o PIASS, ou a Reforma Sanitária Brasileira propõe-se a melhor preparar o setor saúde para responder necessidades de um momento do desenvolvimento político, econômico e social no Brasil, um país subordinado, a tal Análise deverá abarcar tais aspectos e alinhavar a realidade com exigências de um novo sistema de saúde."

"Nosso Projeto para o PIASS era relativamente simples: implantar uma rede de Atenção Primária em todo o Estado segundo o modelo do programa, já consolidado no plano nacional. Ou seja constituir em cada Município um ou mais módulo básico, de acordo com a sua população. Cada módulo deveria ser composto com um Centro e no máximo cinco Postos de Saúde, aos quais supervisionaria e daria apoio. Cada 20.000 habitantes deveriam ser cobertos por um módulo básico e os Postos deveriam se situar em aglomerados de no mínimo 500 habitantes na área rural dos municípios. Os recursos humanos, físicos e financeiros necessários à implantação e custeio deveriam ser calculados a partir dos padrões já definidos nacionalmente pelo Programa. Cada Administração Regional deveria elaborar seu Projeto PIASS até o final do ano e seriam discutidos em Seminários Regionais."

"Entre as oposições compreendemos melhor a oposição ferrenha dos setores da considera esquerda de origem sindicalista e os mais organizados vinculados ao PT, à Centelha (de orientação 'trotskista') e ao PC do B> OS primeiros assumiam as relações do funcionalismo público com os governos com a de empregados com patrões (governos que, tradicionalmente, se comportavam como se o fossem); os segundos, mais próximos dos anarquistas que sistematicamente se opunha a qualquer governo, no capitalismo; e, os últimos que só aceitavam participar de instituições civis se pudessem tomá-las de assalto e 'aparelhando-as'.
O funcionalismo, em geral, tendia a apoiar as ações das lideranças ligadas ao PT - 'Sindicalista' já que aquelas defendiam, mais agressivamente e sem outros compromissos, seus interesses imediatos (maiores salários e menos trabalho). Só nos restava como aliados a serem conquistados, os funcionários vinculados politicamente aos governos (os burocratas de carreira); os intelectuais vinculados ao PCB (quase inexistentes em Minas, no setor) que diferenciavam mais nitidamente os interesses de governos dos interesses públicos; e os intelectuais do PT que compunham a linha dos chamados Independentes, de origem acadêmica e alguns setores da Igreja que articulavam os Movimentos Populares, que, embora simpáticos ao PT, tinham uma visão mais universalista."

"Até que chegamos à conclusão da necessidade de uma intervenção mais definitiva e com repercussões a longo prazo. Aí passamos a discutir a possibilidade de intervir no curso de Saúde Pública, que vinha há anos sendo ministrado pela Escola de Saúde de Minas: substituindo sua direção por outra constituída pelo Prof. Cornelis e seu grupo de Pesquisa e reformulado-o profundamente, já a partir do ano seguinte, de modo que o mesmo pudesse ser nossos principal instrumento de mudanças de ideologia."

"Eu tratava a questão considerando a urgência em implantar e consolidar politicamente um programa experimental de Atenção Primária em Saúde que, pela sua cobertura populacional proposta e dimensão do território de sua abrangência, era o maior do mundo."

"Nós tínhamos plena consciência que somente o processo de sua produção é que garantiria à apropriação daquele pelos seus formuladores e construtores e, é claro, pela população através de suas representações políticas."

"Mesmo porque em política os cálculos instrumentais e estratégicos não são suficientes para alcançar os fins propostos. É necessário também o convencimento dos aliados da justeza e o alimentar nos mesmos a paixão pelos objetivos a alcançar e compromisso total com a 'causa'. E a referência para agir com justeza aparente e para o convencimento de pessoas nunca poderá ser apenas o conhecimento e a estratégia, mas também valores consolidados em máximas aceitas pelos interlocutores. E a política sempre está presente nas relações sociais e familiares. Queiramos, ou não."

"Formalmente o programa era apresentado como uma consequência lógica das políticas já colocadas em prática pelos Ministérios da Saúde e da Previdência com o PIASS, estendendo a intervenção do estado na reorganização da assistência hospitalar. Mas deixava antever a intenção de interferência do Estado no redirecionamento do financiamento dos serviços hospitalares privados lucrativos. A meu ver uma estratégia errada de condução pôs tudo a perder. Talvez por se esquecerem que o poder do Estado é sempre mais influenciável pelos interesses do capital que os do povo, sobretudo quando este ainda não se apropriou da proposta, os responsáveis pela condução do Previ-Saúde optaram por uma divulgação pública do Programa, para conseguir apoio. Com isso alertaram os grandes interesses econômicos organizados e beneficiários históricos das políticas até então vigentes, para o setor. E estes não tiveram dificuldades em 'brecar' a proposta sob a Ditadura Militar que se implantara no País com o objetivo maior de acelerar o desenvolvimento capitalista, favorecendo em tudo os interesses empresariais privados."



MACHADO, Francisco de Assis.O SUS que Eu Vivi – Parte 1: De clinico a sanitarista. Rio de Janeiro: Cebes, 2010 - 278 p.