segunda-feira, 19 de maio de 2014

Caminhos da saúde no Brasil

"Há evidências mundiais de que a estratificação da população por níveis socioeconômicos define também estratos diferenciais nos níveis de saúde. Países desenvolvidos ou em desenvolvimento, com diferentes patamares nos níveis de saúde das suas populações e com diferentes padrões epidemiológicos, assemelham-se no tocante à existência desses gradientes. A frequência de qualquer doença, com raras exceções, aumenta com a redução do nível social e econômico dos grupos sociais. É consistente o fato de que, entre países com níveis econômicos similares, aqueles com maiores níveis de desigualdade social apresentam níveis mais baixos de saúde. Por exemplo, dentre os países desenvolvidos, os Estados Unidos, apesar de ser o mais rico, é o que apresenta maiores desigualdades sociais, gerando diferenciais nos indicadores de saúde entre distintos grupos populacionais. Organismos internacionais (Banco Mundial, Organização Mundial de Saúde) vêm reconhecendo que, sem reduções significativas nas iniquidades sociais, será impossível haver melhorias mais substanciais no quadro global de saúde da população, pois melhorias modestas no padrão das desigualdades têm fortes efeitos nos níveis de saúde."

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A falta de solução para alguns problemas estruturais e básicos, a manutenção de condições e modo de vida inadequados e a insuficiência nos mecanismos que regulam os danos ao meio ambiente ocasionam a superposição dos riscos aos quais está exposta a população. Assim, se, de um lado, mantêm-se os problemas urbanos caracterizados por marcantes deficiências em áreas como saneamento ambiental, habitação e transporte, de outro, têm-se o surgimento da poluição ambiental de origem química (industrial, inseticidas, etc), os riscos ocupacionais, o aumentos dos fatores estressores gerados pela 'modernização' das relações sociais, as mudanças comportamentais, o desemprego estrutural e crescente e a ampliação das desigualdades intra-urbanas. Ademais, o fato de o envelhecimento da população ocorrer em condições em que se associam múltiplos riscos amplifica a chance de ocorrência de várias doenças, aumentando a carga mórbida e reduzindo a qualidade de vida deste grupo populacional.

Existem cada vez mais relatos sobre os efeitos deletérios, sobre a saúde, de fatores que se dão no plano internacional. Assim, os efeitos da denominada globalização que está relacionada com questões tão aparentemente diversas, como o aumento das desigualdades entre as nações, a intensificação do comércio internacional, em especial o comércio de produtos alimentícios, o narcotráfico e o contrabando de armas e cigarros, ou o aumento da temperatura global ocasionada pela crescente poluição atmosférica, são exemplos de 'novos riscos globais' com efeito na deterioração das condições de saúde. Esta superposição de fatores ambientais e sociais 'velhos' e 'novos' é o que torna possível a permanência de algumas doenças tradicionais e emergência ou 're-emergência' de outras tantas, em paralelo ao aumento das doenças crônicas e das violências. Tomemos o exemplo do desemprego, que, além da privação a que sujeita os indivíduos e suas famílias, com efeito no estado nutricional de adultos e crianças e no risco de exposição à doenças infecciosas, provoca aumento na ocorrência de doenças psiquiátricas e cardiovasculares.

Tendo em vista a impossibilidade de atuação, em curto prazo, sobre alguns riscos gerados pelos processos globais, faz-se urgente a superação de algumas categorias de risco tradicionalmente vinculadas à ocorrência de doenças e cuja superação pode ser alcançada, por decisões políticas mais limitadas. Por exemplo, a completa resolução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde, no déficit no suprimento de água e do esgotamento sanitário, em muitos centros urbanos. Já é amplamente conhecido o efeito positivo da melhoria das condições de saneamento, não somente na diminuição de várias doenças infecciosas responsáveis por importantes demandas no sistema de saúde, como também na proteção para o ressurgimento de outros problemas. Não por acaso, o ressurgimento da cólera, na década de 1990, poupou locais com alto padrão de saneamento.

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A melhoria de indicadores de saúde não é alcançada de forma homogênea em todos os grupos populacionais, o que contribui para a manutenção da carga persistente de morbidade, inclusive por causas redutíveis, que permanecem em determinados patamares. Ainda que as políticas de saúde tenha possibilidade de ampliar benefícios para grupos populacionais antes excluídos, é imprescindível que as ações estejam articuladas com outras políticas públicas, voltadas para o enfrentamento dos complexos fatores determinantes das doenças. Sem essa articulação, a desigualdade nos padrões epidemiológicos atuais tende a ser mantida."


FINKELMAN, J., org. Caminhos da saúde no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002.