"A maneira como entendemos a noção de sujeito condiciona e determina nossas propostas organizativas para o setor da saúde. Por exemplo se privilegiarmos o plano da estrutura biológica, tenderemos a sugerir a organização de modelos de atenção relativos a processos de cura e de reabilitação. Se for priorizado o plano das necessidades sociais e dos interesses institucionais, são ressaltadas ações visando à prevenção, à promoção e à intervenção sobre o processo de deliberação de políticas públicas. Em suma objeto, método, objetivo e estratégias na saúde variam de acordo com a concepção que se tem do sujeito.";
"Nilson Rosário Costa, por exemplo, afirma que a saúde vem, nos tempos atuais, deixando de ser considerada como um bem público e um dever do Estado, passando gradativamente a ser entendida como um bem de consumo. Por trás desta mudança, o autor detecta a elaboração de um novo paradigma sanitário que se pauta pelas premissas do pensamentos economicista que, paulatinamente, vêm substituindo concepções vinculadas às Saúde Pública tradicional (Costa 1998). Ao priorizar o equilíbrio fiscal e as regras de mercado, o "paradigma da economia em saúde" subordina princípios de equidade na saúde "aos da eficácia, efetividade e economia nos gastos públicos" (Costa 1998, p. 132), o que justifica a implementação de estratégias de focalização e seletividade da ação pública.";
"O destaque dado ao papel que cumpre a 'Sensação de controle pessoal sobre a doença' parece ser um fator que explica, em parte a popularidade desta corrente. Em uma era em que crescem as ameaças socioambientais ao homem, torna-se confortável pensar que a ação individual reduz as chances de uma morte precoce. Esta perspectiva contribui, de passagem, para a defesa da ideia de que é possível assegurar a saúde sem que seja necessário realizar transformações no modo de produção vigente, nas relações sociais e (ou) de governantes (Tesh, 1998).";
"Dessa maneira, o social dilui-se em uma retórica comportamental, a-histórica, que toma o ambiente como tudo aquilo que inclui todas as coisas relacionadas com a saúde e que são externas ao corpo humano e sobre o qual o indivíduo tem pouco ou nenhum controle. Estão ausentes temas como poder, sujeitos sociais, estruturas sociais, capitalismo e luta de classes. O mesmo ocorre em relação a categorias como pobreza, iniquidade social, desemprego, condições de trabalho e de vida, democracia, participação e direito.
Estas limitações da corrente Promoção da Saúde Behaviorista estão na raiz do fenômeno de "culpabilização das vítimas" ("blaming the victms"), um processo no qual determinados grupos populacionais, à margem do desenvolvimento capitalista, passam a ser responsabilizados por problemas de saúde cujas causas se encontram fora de sua governabilidade (e.g., poluição, desemprego, falta de saneamento, de habitação e de renda) (Crawford, 1977; Labonte & Penfold, 1981. Labonte, 1993). Em determinados contextos (e.g., hegemonia de políticas neoliberais) estratégias behavioristas podem vir a constituir-se uma escusa para a desobrigação do Estado em relação às suas obrigações sociais, à custa de maior carga de responsabilidade de indivíduos e grupos por seus problemas de saúde.";
"Estas evidências reafirmam a importância da relação entre o modo como a sociedade se organiza e a saúde da população. Apontam, outrossim, que políticas que reduzem a iniquidade social, distribuindo recursos materiais e não materiais, têm efeito positivo na saúde de todos. Em outras palavras, a melhoria da qualidade de vida de grupos e coletivos passa necessariamente pela consideração de que a saúde é um bem comum e um direito.";
"Programas que preconizam a capacitação e o controle sobre a vida e a saúde deixam intocadas, muitas vezes, as discussões sobre os diferenciais de poder existentes na relação entre 'especialistas e não especialistas, populações dos países ricos desenvolvidos e populações dos países pobres em desenvolvimento, homens e mulheres, e heterossexuais e homossexuais masculinos e lésbicas' (Petersen & Lupton, 1996, p. 10);
"Na ordem capitalista atual, o 'empowerment' psicológico tem inspirado programas políticos da nova direita no momento em que, ao responsabilizarem os indivíduos por seus problemas, reforçam a implementação de políticas públicas residuais. Embora expresso na linguagem que afirma a autonomia das pessoas, individualmente e por meio de estruturas de mediação como as igrejas e as associações voluntárias, devem contar consigo mesmas antes de recorrer a serviços prestados por profissionais sociais e de saúde (Robertson & Minkler, 1994, p. 302);
"O 'empowerment' comunitário demanda, por conseguinte, a convivência da noção de determinismo social com a de agenciamento humano. Implica entender que as macroestruturas influenciam e condicionam o cotidiano dos indivíduos e estes, no cotidiano de suas vidas, conformam as macroestruturas. Ilustrando este fato, na saúde é possível constatar que, se por um lado muitos estudos epistemiológicos demonstram o papel da miséria e de outros fatores sociais, econômicos e políticos na determinação do estado da saúde do indivíduo, outros estudos, por outro lado, concluem que os indivíduos são capazes de reconfigurar o contexto social no qual vivem e que isto tem consequências positivas para a própria saúde.";
"A politização da saúde e de estratégias de promoção não significa que apenas a ação política direta é que tem validade. Quer dizer, isto sim, que devemos sempre 'enquadrar os problemas de saúde e sua solução no seu contexto quanto da social, político e econômico (Robertson & Minkler, 1994, p. 302). O 'empowerment' pode se dar tanto em nível do coletivo quanto da relação intersubjetiva. Pode ocorrer no espaço da promoção da prevenção da cura e da reabilitação. O elemento que determina o caráter libertário do 'empowerment' é dado, por exemplo, pela maneira como os serviços lidam com a clientela: são os usuários suplicantes e beneficiários de um serviço ou são membros de um coletivo e portadores de direitos?";
"A corrente da Nova Promoção da Saúde tem contribuído para uma renovação progressista do pensamento sanitário internacional e, ao mesmo tempo tem servido de suporte a uma prática mantenedora do statu quo. Para Stevenson & Burke o discurso desta corrente sobre 'prevenção de doenças, promoção à saúde, iatrogenia, <
"Com base no levantamento de evidências empíricas, econômicas e epidemiológicas, a Saúde da População afirma a insuficiência do modelo biomédico hegemônico. A seletividade da clientela pela lógica profissional e a presença de interesses privatistas de empresários e médicos são alguns dos elementos citados como responsáveis por este quadro. Para esta corrente a execução de cuidados sem considerar a cura ou a prevenção dos danos representa uma extensão da lógica de lucro do setor privado para o sistema de saúde (Evans & Stoddart, 1990).
Critica, igualmente, o projeto behaviorista de Promoção da Saúde ao considerar que o seu modelo explicativo do fenômeno de saúde/doença é responsável pelo fato de que uma proporção surpreendente de ações de promoção tem na sua centralidade mensagens do tipo 'consulte seu médico [...].";
"[...] Para a Promoção da Saúde da População o ambiente físico e o ambiente social determinam e condicionam a resposta biológica do indivíduo. Este, por sua vez desenvolve mecanismos adaptativos que influenciam na produção da doença e na saúde/função.
Relações sociais hierarquicamente diferenciadas são, por exemplo, consideradas um dos fatores responsáveis pelo aumento da morbimortalidade de determinados grupos populacionais. Isto se deveria ao fato de que tais relações poderiam levar à baixa auto-estima, tornando os indivíduos e coletivos mais propensos a adquirirem doenças. Esta afirmação permite compreender que o desemprego 'faz mal para a saúde' tanto pela privação econoômica quanto pelo isolamento e estigma social a que é submetido o indivíduo.";
"Preocupa, em especial, o enfoque estrutural funcionalista com que a Saúde da População significa o 'social'. Categorias como poder luta de classes, sujeitos sociais e iniquidade social, centrais a um projeto de transformação do statu quo, estão ausentes ou têm presença marginal, neste ideário (Coburn, 1996). Poland et al. (1998) apontam, por exemplo para os limites da análise sobre a medicina e a profissão médica na Saúde da População que se centra na relação entre os seus elementos internos ou em discussões sobre a influência de recursos internos - destacadamente recursos financeiros -, observando a ausência da discussão sobre as relações de poder [...]".;
"A exceção parece ter sido, no Brasil, a incorporação crítica do ideário da Saúde Comunitária. No contexto das lutas pela redemocratização da sociedade brasileira e do fortalecimento das organizações sociais, sanitaristas progressistas realizam uma releitura da Medicina Comunitária buscando justificar a subsidiar implementação de projetos sociossanitários contra-hegemônicos em numerosas regiões do País - Montes Claros Paulínea, Sobradinho, Caruaru, Londrina, Niterói e Campinas (Fleury, 1998; Escorel, 1988; van Stralen, 1996). Estas experiências terão, a posteriori, papel de destaque para o desenvolvimento e consolidação do arcabouço teórico da reforma sanitária.";
"Parte desta e outras dificuldades do período analisado se explicam pelo predomínio de um projeto político hegemonizado por forças políticas nacionais conservadoras e pelo influxo crescente do ideário neoliberal na formulação de políticas públicas no País. Neste contexto, grupos de interesses rearticularam-se logrando diluir, bloquear ou rejeitar proposições constitucionais que apontassem para a construção de um Sistema de Saúde público e de qualidade (Luz, 1994). A restrição dos gastos públicos na saúde e a expansão do setor suplementar foram algumas das estratégias priorizadas pela (re)ação conservadora.";
"Ao considerar que os conflitos sociais fundamentais têm como origem a concentração do poder econômico e que as instituições de saúde são em última instância, resultado de determinações estruturais, a Saúde Coletiva do período coloca na agenda setorial o tema da transformação do modo de produção capitalista. Preconiza, em essência, que libertar o ser humano das estruturas que o oprimem, que produzem doenças e que impedem a equidade na distribuição de bens e serviços sanitários é uma estratégia-chave para a produção da saúde.";
"O projeto terapêutico estrutural, que procura explicar o complexo saúde/doença pela 'patogenicidade do capitalismo' e que exclui do foco de análise as patologias clínicas, mostra-se insuficiente para instrumentalizar a intervenção no campo da saúde. Com a substituição do 'conceito biologista de <
"Partindo dessas considerações sugere-se que a prática sanitária da atenção médica, que tem por referências o paradigma flexneriano seja substituída por uma prática sanitária baseada na Vigilância da Saúde, que seria informada pelo modelo teórico-conceitual da Produção Social da Saúde. Assim, desapareceria a 'artificial separação entre ações curativas e preventivas', uma vez que 'o ambiente social pode ter papel curativo importante, assim como a existência de serviços confiáveis de saúde pode exercer função preventiva pelo sentimento de confiança que cria na população' (House, 1988, apud: Mendes, 1996, p. 240).";
"[...] Ao tomar as práticas realmente existentes - majoritariamente degradadas - como a essência da 'Clínica', a Vigilância à Saúde tende a desconsiderar a importância do conhecimento clínico acumulado ao longo da História. Esta análise subsdia a formulação de um modelo teórico que repete a contraposição entre 'um modelo centrado na saúde pública [e um] modelo centrado na medicina; o que tem sido profundamente limitado para efetivamente criar modos alternativos mais impactantes no cerne das práticas de saúde' (Merhy, 1995b).";
"Entendo que um limite importante da corrente Vigilância da Saúde não é constituído por suas tecnologias, úteis e necessárias à construção do SUS, mas pela manifesta intenção de constituir-se como um paradigma sanitário que substitua todos os demais. A Vigilância da Saúde é útil como um modo de intervenção sobre o real que prioriza os coletivos humanos, entretanto não tem potência para abarcar a complexidade do processo saúde/doença e muito menos as múltiplas dimensões do sujeito que se fazem presentes no campo da saúde.";
"Para a corrente Em Defesa da Vida, um dos principais empecilhos ao desenvolvimento da Reforma Sanitária brasileira tem sido o insuficiente enfrentamento da temática da mudança do processo de trabalho e da participação dos trabalhadores de saúde na mudança setorial. Perante este quadro, ele procura: 1) criar mecanismos para a incorporação de novos sujeitos na luta pelas mudanças setoriais; 2) qualificar a gestão do setor da saúde, e 3) promover mudanças visando intervir no processo de trabalho em saúde.
Fundando-se nos princípios e diretrizes do SUS a corrente busca contribuir para: 1) construir um sistema de saúde pública universal, equitativo, participativo, de qualidade e centrado no usuário; 2) produzir trabalhadores que sejam sujeitos autônomos, criativos e socialmente solidários, e 3) fortalecer a democracia. Para isso desenvolve conceitos, estratégias e tecnologias de gestão com o intuito de implementar as diretrizes que viabilizem a gestão democrática dos estabelecimentos de saúde, o acolhimento humanizado da clientela, o acesso a serviços resolutivos e o fortalecimento de vínculos entre profissionais e usuários com a clara definição de responsabilidades."
"- entende que a política lato sensu vai além da relação entre o Estado e a sociedade civil organizada, estando presente, por exemplo, na microesfera da vida social;
- valoriza ações em microespaços consideradas estratégicas para a mudança, sem com isso desconhecer o papel dos determinantes macroestruturais;
- entende que sem a participação dos trabalhadores, médicos incluídos, não é possível haver mudanças no setor público de saúde;
- define como objetivo do setor da saúde produzir bens e serviços necessários e contribuir para a emancipação social;
- preconiza o resgate do usuário como sujeito da mudança, valorizando seu papel no dia-a-dia do Serviços de Saúde, assim como em fóruns de deliberação coletiva, tais como os Conselhos de Saúde;
- compreende que, se por um lado, a demanda espelha a oferta de serviços e a ideologia/cultura dominantes, por outro ela traduz as aspirações da sociedade por novos padrões de direitos sociais, revelando elementos da subjetividade do usuário e devendo, portanto, ser criticamente incorporada ao processo de organização dos serviços de saúde;
- preconiza a necessidade de se formular a Clínica e a Saúde Pública a partir das reais necessidades dos usuários.";
"A Defesa da Vida trabalha com um modelo social de determinação do processo saúde/doença em que são enfatizados aspectos ideológicos, culturais e psicológicos da vida em sociedade valorizando-se, aí, temáticas como o agenciamento humano, a produção do sujeito e a emancipação social.";
"Ela entende que a doença é um fenômeno social que reflete relações plurais envolvendo 'indivíduos, grupos e classes sociais, serviços de saúde, sistema produtivo e de consumo, bem como o saber médico-sanitário sobre esta doença', considerando que mesmo a dimensão individual do sofrimento é sempre um produto da história de um certo sujeito vivendo em um dado tempo histórico (Campos, 1991, pp. 69-70). Argumenta que processos de sofrimento, de produção de subjetividades, de adoecimento, de morte e de desejo de viver influenciam a demanda por serviços de saúde e as lutas coletivas por acesso aos direitos e pelo 'direito a ter direitos'.
A Defesa da Vida julga que um indivíduo saudável é o que possui sentimento de segurança para viver a vida, para criar valores e instaurar normas vitais a partir de seus desejos, interesses e das necessidades individuais e do entorno social. Em lugar da resignação e da conformidade que o adjetivo paciente insinua (Ferreira, 1999), esta corrente considera de fundamental importância redefinir o sujeito/usuário das intervenções sanitárias, considerando-o um indivíduo capaz de viver a vida com liberdade e criatividade.
Produzir saúde significa contribuir para aumento do coeficiente de autonomia de indivíduos e coletivos para viver a vida, ciente de autonomia de indivíduos e coletivos para viver a vida, possibilitando-lhes lidar com as limitações decorrentes da doença, da genética e do contexto psicossocial. Isto demanda capacidade para utilizar instrumentos naturais e artificias (e.g., a Clínica, a Saúde Pública) para afastar a dor, o sofrimento, a morte e para poder escolher os vários modos de seguir a vida.
Saúde é considerada o resultada o resultado de um processo de produção, um objetivo a ser alcançado por tecnologias e saberes que têm por objeto a doença em sujeitos concretos ou situações que a potencialize.";
"A DV compartilha da crítica de muitos estudiosos no que se refere ao papel da prática clínica no controle do social; na redução de sujeitos/doenças; na viabilização de interesses corporativos de natureza economicista e no fortalecimento de interesses privatistas do complexo médico-industrial. Compreende, porém, que esta constatação não autoriza a negação do imenso aporte da Clínica para prolongar e melhorar a qualidade de vida das pessoas ao evitar e aliviar dor e sofrimento, ao curar e reabilitar. A clínica degradada, prática social historicamente determinada, não sintetiza todas as possibilidades de intervenção acumuladas pelo saber clínico. Julga que a ênfase no valor de troca das práticas clínicas, favorecidas pelo modo de produção neoliberal, não deve servir de argumento para subestimar a importância e o valor desta prática."
"Propõe que, em lugar da clínica degradada, seja estimulada a incorporação, pelos trabalhadores de saúde, de diretrizes que apontem para a garantia da reprodução social e também da emancipação social. A prática clínica que se deseja é a que intervém nas disfunções biológicas por meio da prevenção, do diagnóstico, da cura e da reabilitação, mas também como 'um processo e um espaço de produção de relações e intervenções, que se dá de modo partilhado, e no qual há um jogo entre necessidades e modos tecnológicos de agir' (Merhy, 2000, p. 189).;
"Para a Defesa da Vida, a alienação dos trabalhadores da saúde é um dos pontos críticos do SUS, estando presente na relação deste com: 1) o objeto do trabalho, o que se reflete na fragilidade de vínculos entre o trabalhador e o usuário; 2) os meios de trabalho, o que é observável na separação entre os que executam as ações e os que dirigem as instituições, e 3) o conjunto dos trabalhadores de saúde, uma vez que o trabalho de grupo não vem significando a constituição de trabalhador coletivo e de uma prática interdisciplinar.";
"Para esta corrente, um modelo de atenção em saúde deve garantir a integralidade da atenção, o que passa, necessariamente, pela ampliação e redefinição das ações de Saúde Pública e pela constituição de uma rede resolutiva em que se valorize o papel da atenção básica, secundária e terciária.
A rede básica cumpre, aqui, função essencial. Os centos de saúde devem funcionar nesta proposta como espaço de apoio às pessoas com dificuldade de levar a vida em sociedade, em razão de desordens direta ou indiretamente vinculadas ao setor saúde. Sugere, para isso, que os serviços de saúde tenham como característica uma plasticidade organizacional que os habilitem a 'absorver e a trabalhar as aspirações de saúde dos grupos e das pessoas, por mais que, de imediato, não correspondam às expectativas clínicas e epidemiológicas dos técnicos (Campos, 1992, pp. 168-72). A corrente Em Defesa da Vida preconiza que a rede básica se estruture visando esgotar a maior parte dos problemas de saúde e que realize ações com o objetivo de acolher os usuários, prover uma Clínica de qualidade e exercer ações de Saúde Pública. Além da atenção médica individual e das ações programáticas, sugere a ampliação da oferta de serviços, tomando como base a realidade local e as possibilidades institucionais.
Esta corrente considera igualmente importante fortalecer a capacidade resolutiva das unidades de serviços de nível secundário e terciário em relação à organização dos hospitais. Propõe redefinir suas funções, construir novos arranjos gerenciais e reorganizar internamente processos de trabalho.";
"Ao final da década de 1990, a Em Defesa da Vida consolida uma proposta organizativa e gerencial para hospitais e rede básica que recebe a denominação de Equipe de Referência. Este arranjo procura, entre outros objetivos, contribuir para a constituição de espaços institucionais de co-gestão; estimular o trabalho interdisciplinar e facilitar a criação de vínculo entre os trabalhadores e os usuários da saúde.";
"Cada usuário deve contar com um profissional de referência responsável pelo gerenciamento do cuidado observando a evolução do problema, administrando o fluxo do usuários pelo sistema e velando pelo cumprimento do projeto terapêutico individual. Este se responsabiliza pela integralidade e a qualidade do atendimento prestado, devendo disponibilizar e ofertar ao usuário as tecnologias necessárias, a exemplo de consultas individuais, grupos educativos, atendimento domiciliar, trabalhos comunitários, ações programáticas, ações de vigilância à saúde e o acolhimento. Este último constitui uma estratégia que procura facilitar o acesso dos usuários aos serviços e o disparo de dispositivos que provoquem rearranjos no modo de produzir saúde nas distintas unidades assistenciais (Merhy, 1994; Carvalho, 1997; Franco, Bueno e Merhy, 1999; Malta, 1998, 2001).";
"A Defesa da Vida entende que, para se opor à lógica privatista e clientelista do setor público, faz-se necessário valorizar a autonomia dos trabalhadores de saúde buscando reorganizar processos de trabalho e democratizar a gestão das instituições, tendo por objetivo e parâmetro as necessidades dos usuários.
A corrente afirma que o recorte de problemas sanitários é, antes de uma decisão técnica, uma decisão política. Embora reconhecendo a importância da epidemiologia como elemento fundamental para o planejamento e a gestão, alerta para a presunção dos que sugerem a subordinação das práticas clínicas, do planejamento e da gestão em relação às evidências epidemiológicas. Escutar e interpretar a demanda cotidiana dos usuários, realizar inquéritos sociais e viabilizar o debate de propostas em espaços públicos são alguns dos caminhos sugeridos para que, ao lado da epidemiologia, sejam feitas as escolhas mais adequadas no setor da saúde.";
"Ao reconhecer que o setor da saúde é permeado pela disputa de interesses, esta corrente propõe-se a desenvolver estratégias de gestão que permitam a negociação de conflitos e a tomada de decisões que viabilizem ações eficazes sobre a realidade sanitária. Desenvolve, para isso, um conjunto de proposições que procuram apontar para um processo de poder compartilhado e para a descentralização do processo decisório e que levem à diminuição da distância entre os que comandam, planejam, dirigem e a maioria executante de ações e serviços (Merhy, 2000).";
"Partindo do diagnóstico da insuficiente incorporação da temática do trabalho nas discussões sobre a gestão da saúde, Merhy vem propondo uma nova maneira de se pensarem estratégias de intervenção. Ao considerar que a 'gestão do cotidiano em saúde [é um] terreno da produção e cristalização dos modelos de atenção à saúde' sugere alternativas que têm como eixo o conceito de 'micropolítica do trabalho vivo em saúde'. Concebe o trabalho vivo como sendo 'o momento do trabalho em ato, que se <
"Com estas considerações, Merhy propõe que gestores e trabalhadores se capacitem a interrogar o sentido da captura do trabalho vivo pelo trabalho morto. Caso se desvelem sentidos contrários às necessidades dos usuários, defende uma intervenção para 'liberar o trabalho vivo da força instituinte do trabalho morto, que está cristalizada nos meios de produção e no processo já institucionalizado do modo de trabalhar'. (Merhy, 1995, p. 7).";
"Para se repensar a gestão em saúde, faz-se necessário 'reconhecer que a saúde é um território de práticas em permanente estruturação e ontologicamente conflitivo'. Estes conflitos ocorrem no campo de definição das macropolíticas sociais, no campo das organizações em saúde e no espaço de produção em ato da saúde. Explorar estas 'tensões-potências constitutivas do campo da saúde' (Merhy, pp. 306-13), com o objetivo de substituir a lógica centrada em procedimentos por uma lógica centrada no usuário, constitui o centro desta produção.";
"Ao referir-se à necessidade de tornar público o processo de trabalho em saúde que se dá em torno do trabalhador com o usuário, o autor alerta para a necessidade de se preservar o 'exercício privados das produções intercessoras, base de constituição de qualquer ato de saúde' (Merhy, 1999, p. 308). O que se busca é pôr um freio nos interesses privatistas dos profissionais em saúde sem, com isso, impedir o exercício da autonomia que os caracteriza. O importante é que as ações de saúde tenham como referência os interesses dos usuários.";
"Embora não tenha a temática das políticas públicas como centro de suas análises, a Defesa da Vida afirma a necessidade de o Estado garantir a saúde de todos os cidadãos, como prestador e regulador de serviços. Esta corrente não compartilha, porém, da visão política estatista, vez que trabalha com a noção de que não basta um Estado interventor, mas, sobretudo, um Estado fundado em regras públicas coletivamente contratadas.
Para a corrente Em Defesa da Vida pode-se otimizar o papel do Estado, conciliando serviços próprios com alta produtividade, com qualidade e humanização do atendimento público, em geral, e da atenção médico-sanitária, em particular. Ela denuncia, em contrapartida, políticas focalizadoras ou estratégias que, sob o manto do melhor uso dos recursos escassos, propõem a prestação de serviços hospitalares pelo setor privado."
"O Brasil, por sua vez, apresenta um desenvolvimento econômico intermediário que convive com escandalosa concentração de renda, uma sociedade autoritária e carências sociais acumuladas ao longo da história. Nesse quadro a Saúde Coletiva teve de compatibilizar princípios e estratégias que procuravam criar um sistema nacional de saúde com a participação na luta pelos direitos sociais e políticos. O desenvolvimento do SUS vincula-se organicamente a um processo mais amplo de consolidação da cidadania e de implementação de políticas sociais redistributivas e universalizantes.";
"A experiência sanitária brasileira, que tem por eixo o paradigma da Saúde Coletiva, constitui nos dias de hoje um exemplo para os países da periferia do mundo capitalista. A abrangência desta abordagem e o seu caráter de alternativa às políticas públicas dominantes no setor saúde legitimam esta proposta como uma promissora alternativa para países que, como o Brasil, padecem das consequências da globalização neoliberal.";
"Inspirado pelo ideário da Nova Promoção da Saúde, da Vigilância da Saúde e da corrente Em Defesa da Vida, julgo pertinente conceituar saúde como 'um processo/estado em que indivíduos e coletivos têm o máximo de capacidade para viver a vida de maneira autônoma, reflexiva e socialmente solidária.";
A investigação realizada corrobora a ideia de que a produção da saúde passa pela garantia de ações integrais que procurem prevenir, curar, reabilitar e promover a saúde individual e coletiva. Para isso faz-se necessário valorizar dois planos de intervenção: a reprodução da vida e a emancipação social. Produzir saúde em nosso país significa, em muitos momentos, produzir sujeitos, individuais e coletivos, tendo, como pano de fundo, a construção da cidadania.";
"Sugere-se, aqui, trabalhar com uma noção de parceria entre profissionais, indivíduos e comunidades no lugar da relação hierárquica que confunde o trabalhador com o provedor de serviços e o usuário com o cliente. A incorporação desta categoria às práticas assistenciais demanda que novos modos de se fazer saúde incorporem, como diretriz, uma postura que encare os usuários na sua singularidade de sujeitos portadores de direito em substituição a uma perspectiva que os entende como suplicantes e beneficiários dos serviços de saúde.";
"O esgarçamento do tecido social brasileiro nas últimas décadas deixa clara a necessidade de valorizar o sistema de cuidados estruturados ao redor do SUS como um território privilegiado de sociabilidade e politização. No Brasil serviços de saúde são, portanto, espaços que produzem bens e serviços. Produzem igualmente sujeitos, individuais e coletivos, e contribuem para a ampliação da vida democrática das distintas instituições. Serviços de saúde que previnam a doença, que curam e que reabilitam devem ter por objetivo contribuir para o aumento da capacidade reflexiva e de intervenção de diferentes sujeitos sobre o social. Este apresenta uma dimensão individual mas também coletiva, que pode incidir de maneira positiva sobre os múltiplos determinantes do processo saúde/saúde.";
"Essa afirmativa é especialmente válida para nosso país, onde o SUS constitui um dos poucos serviços de proteção social à disposição da quase totalidade dos brasileiros. Neste quadro de carências o desemprego, a falta de moradia, os ambientes insalubres, a violência e as dificuldades de inserção social passam a influenciar demandas e a determinar o conteúdo das necessidades dos usuários que procuram os serviços de assistência em saúde. O SUS, conformado por extenso aparato assistencial, vem constituindo, em muitas experiências, um espaço pedagógico de conformação de uma nova cidadania em que sujeitos, individuais e coletivos, disputam projetos, formulam propostas e lutam por seus direitos à saúde.";
Carvalho, Sergio Resende. Saúde Coletiva e Promoção da Saúde: sujeito e mudança. 3 ed. - São Paulo : Hucitec, 2013.